AVASSALADORAS RIO - SURRA DE GRAVATA é a coluna quinzenal de ANDRÉ FERRER

AVASSALADORAS RIO - SURRA DE GRAVATA é a coluna quinzenal de ANDRÉ FERRER
Segundo André Ferrer "Amarelas e medrosas" é uma tentativa de "ser menos ranzinza e um pouco mais lírico".

domingo, 5 de julho de 2009

AS MINHAS LENTES CARTESIANAS

“Com o aumento da presença dos livros no dia-a-dia, principalmente entre os jovens, a nação brasileira só tem a ganhar em termos de poder participativo nas questões políticas e sociais. Da autodefesa diante de um gerente de banco simpático, mas ávido por comissões, à limpeza ética e moral do Senado; em todos os níveis: uma revolução!”

Dados importantes a respeito do hábito da leitura foram divulgados em maio. Esse trabalho do Ibope teve como foco de estudo o comportamento, gosto e preferência dos leitores. Segundo a pesquisa, a média de livros lidos pelo brasileiro é de quatro livros por ano e aqueles que mais lêem na pátria dos analfabetos funcionais são os jovens. Há oito anos, a população lia, em média, dois livros por ano, isto é, a metade do que supostamente lê hoje.

O termo analfabetismo funcional é comumente empregado para designar a deficiência de alguns indivíduos na interpretação de textos. Segundo Luke Castells e MacLennan (1986), “o termo foi cunhado nos Estados Unidos na década de 30 e utilizado pelo exército norte-americano durante a Segunda Guerra, indicando a capacidade de entender instruções escritas necessárias para a realização de tarefas militares.” A partir de então, de acordo ainda com os dois autores, “o termo passou a ser utilizado para designar a capacidade de utilizar a leitura e escrita para fins pragmáticos, em contextos cotidianos, domésticos ou de trabalho, muitas vezes colocado em contraposição a uma concepção mais tradicional e acadêmica, fortemente referida a práticas de leitura com fins estéticos e à erudição.” Ou seja: o analfabeto funcional é incapaz de interpretar textos simples como relatórios comerciais, manuais de instruções (em português) e editoriais da imprensa escrita. Contratos bancários e Machado de Assis, então, nem se fala!

No Brasil, dados recentes do Instituto Paulo Montenegro, ligado ao Ibope, apontam que o analfabetismo funcional atinge cerca de 75% da população, ou seja, somente 25% da população é alfabetizada plenamente. Isso se deve à baixa qualidade dos sistemas de ensino (tanto público, quanto privado), ao baixo salário dos professores, à falta de infra-estrutura das instituições de ensino e à falta do hábito da leitura do brasileiro. Em alguns países desenvolvidos, como é o caso da Suécia, esse índice é inferior a 10%.

A pesquisa “Retratos da Leitura do Brasil”, uma encomenda do Instututo Pró-Livro para o Ibope, ouviu pessoas a partir dos cinco anos de idade e mostra que o número de leitores vem crescendo devagar: 55% da população entrevistada afirmou ter lido um livro nos últimos três meses. 39% dos 59,6 milhões de leitores de livros no Brasil, segundo a pesquisa, estão na faixa etária de 5 a 17 anos e outros 14% possuem entre 18 e 24 anos. De fato, muito promissor.

Com o aumento da presença dos livros no dia-a-dia, principalmente entre os jovens, a nação brasileira só tem a ganhar em termos de poder participativo nas questões políticas e sociais. Da autodefesa diante de um gerente de banco simpático, mas ávido por comissões, à limpeza ética e moral do Senado, apenas com senso crítico e embasamento argumentativo vigorosos dizimaremos o câncer da corrupção. Em todos os níveis: uma revolução. Algo sem precedentes no país do Sarney, esse latifundiário imortal dos Lençóis Maranhenses!

Rezo para que isso aconteça um dia. Rezo, mas não enublo a minha fé que, por umas e outras, em vez de cega, usa os óculos do René Descartes.

E como ser diferente neste país?! Veja só isto aqui: o “retrado” do Ibope sobre a leitura do brasileiro não serviu apenas para afrontar essa minha esperança, mas também aumentou em muito os graus das minhas lentes cartesianas.

Segundo a pesquisa, enquanto 90% dos leitores adultos com mais de 40 anos de idade preferem ler em locais silenciosos, muitos jovens com idade entre 14 e 17 anos dizem que gostam de ler ouvindo música. Já 14% das crianças com menos de 10 anos, curtem os livros ao mesmo tempo em que assistem à TV. Cá entre nós, quem é que lê produtivamente na companhia do Faustão e do iPod?

por André Ferrer

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Créditos de conteúdo: g1, Wikipédia, O analfabetismo funcional na cidade de São Paulo (Haddad, Sérgio) . Créditos de imagem: fotograma do filme “A História Sem Fim” (The Neverending Story), Alemanha, EUA, 1984, direção de Wolfgang Pertensen, baseado no livro homônimo de Michael End. Se este ou outros textos da web te interessar, não reproduza sem o devido crédito ao autor. Respeite sempre os direitos autorais de conteúdos, imagens e softwares!


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